sábado, 27 de junho de 2015

O falhanço e os falhados

Em Portugal existe o hábito caricato de adoptar de tempos a tempos palavras de ordem que se tornam automagicamente a nova solução para todos os males e que vão levar Portugal à liderança social e económica da Europa.

Se há uns anos atrás o futuro estava nas “renováveis”, que se seguiu aos “sistemas de informação” que, por sua vez, tinham sucedido às “telecomunicações”, hoje vivemos na era do “empreendedorismo e inovação”. E, assim de repente, eis que nascem por todo o lado empreendedores sem vocação e inovadores que nada de novo trazem, confirmados por múltiplas conferências e inspiradores gurus que prometem em 20 minutos tirar meia-centena de cidadãos do marasmo do trabalho por conta de outrém para o promissor mundo do “empreendedorismo”.

O resultado tem sido aparentemente positivo, tendo 2013 visto um crescimento de 16% no número de empresas criadas. Mas será de esperar que este aumento do número de empresas leve a que, a prazo, seja acompanhado de um aumento no número de insolvências, à medida que estes novos empreendedores vêm o seu modelo de negócio testado pelo mercado.

Não me interpretem mal. O falhanço de empresas é, a meu ver, um sinal salutar de uma economia dinâmica, em que diversos produtos, soluções e modelos de negócio são seleccionados pelo mercado, permanecendo os mais viáveis e perecendo os restantes. Mais ainda, o corpo de experiência adquirida por todos aqueles que tentaram e falharam seria de inigualável valor para um País que procura tornar-se mais competitivo num mercado Global, como o prova o exemplo dos Estados Unidos da América.

Mas Portugal não é os EUA. Enquanto do outro lado do Atlântico o empreendedor que falhou é tido como experiente, em Portugal é etiquetado de falhado. E como a banca portuguesa não dá crédito a uma nova empresa sem que os sócios apresentem os seus bens pessoais como garantia, cada empresa que falha arrasta consigo os seus empreendedores para uma ou duas décadas de miséria, sem acesso ao crédito e até mesmo a subsídio de desemprego, pago mas nunca recebido.

E, só por isto, conseguimos em Portugal transformar o caminho virtuoso da experiência empresarial que nos faria crescer enquanto País, numa fábrica de falhados cuja próxima fornada se avizinha nos anos vindouros.

Por isso, se queremos dar o salto empreendedor e da inovação, temos que mudar a nossa cultura e recuperar estes valores, o que apenas é possível pela educação.

Só premiando quem falha a tentar uma nova abordagem a um problema, ao invés de repetir maquinalmente um caminho já percorrido, criaremos uma cultura de arrojo.

Só efectivamente enaltecendo o trabalho árduo, esforço e talento, ao invés de fazer dos nossos modelos de conduta a ignorância e a inépcia e colocando na liderança das nossas instituições pessoas desonestas, preguiçosas e incompetentes, criaremos uma verdadeira meritocracia.

Só criando em todos o espaço não só para sonhar mas o impulso para fazer, motivando quem não se acomoda ao que é mas luta pelo que pode ser, criaremos a inspiração necessária para o desenhar dos novos grandes projectos nacionais.

Então sim, numa sociedade fértil de arrojo, mérito e inspiração será possível que a semente do empreendedorismo e inovação medre e cresça, permitindo a Portugal estender novamente os seus ramos viçosos pelo Mundo por opção, e não por obrigação.

Até esse dia, estaremos limitados a umas poucas sementes de cacto que sobrevivem em solo estéril.



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